as mães são autoras de um dos fenómenos sociais menos estudados da natureza humana, se calhar por que são mães e ninguém se quer meter com elas.
a que me refiro? à solidariedade. a pouca coisa em que as mulheres são solidárias é na maternidade. e não é para tratarem dos filhos umas das outras (normalmente contam com amigos sem filhos para isso), nem para se defenderem umas à outras de críticas. não, nada disso. as mães são todas solidárias quando é para se desculparem umas às outras.
têm sempre resposta pronta para explicar porque é a que a outra mãe disse que a filha parecia um espantalho quando saiu do cabeleireiro, porque é que disse à filha que estava cada vez mais gorda, porque é que a filha tinha sempre tão mau gosto a vestir. e sim, a explicação, normalmente, resume-se a um "porque se preocupa, pois claro". pois claro.
a solidariedade maternal é um fenómeno incontestado porque todos sabemos que se há pessoa com quem não nos devemos meter é com a nossa mãe (e já agora com a dos outros... parece-me que as crianças ainda não perceberam o potencial do "vou dizer à minha mãe" em vez do "vou dizer ao meu pai"... quer dizer, se calhar perceberam... o pai chega, toma lá uma belinha, ou um calduço, ou um chapadão, e o caso fica arrumado... já dizer à mãe, é um golpe muito baixo... um assunto não se resolve com essa facilidade...). por isso, fingimos que não compreendemos que as amigas que são mães, são as primeiras a defender a nossa, depois de nos queixarmos delas (com o incontestável - "porque se preocupa, pois claro". ora, pois, claro.
a preocupação maternal é a arma mais maquiavélica e cara que pode existir. retorcida e maliciosa, é exercida sem dó nem piedade, e ninguém se pode atraver a dizer - mãe, não se preocupe comigo!, porque não conseguimos sobreviver à falta de preocupação da nossa mãezinha. é tenebrosa a ideia de que falamos com a nossa mãe e ela não nos pergunta como estamos, se precisamos de alguma coisa. mas é bem caro o preço que pagamos por isso.
há várias preocupações que pagávamos de bom grado que a nossa mãe não tivesse: estares a caminhar para obesidade se não tomares cuidado, envolvereste com uma pessoa que não é certa, ires com melhor roupa para o trabalho que os outros vão pensar que não tens dinheiro; cortares o cabelo no sítio certo, em vez de andares por aí na rua com esse mau aspecto; alimentares-te de jeito, que essas porcarias que comes só fazem mal. mas não há nada a fazer. elas estão aí e nós temos que aguentar com elas.
todos sabemos que estariamos muito melhor se continuássemos a viver com a nossa mãe: refeições saudáveis feitas, roupa lavada e arranjada e de muito bom gosto, o penteado perfeito. de vez em quando um miminho e vá, muito de vez em quando, a possibilidade de sair de casa para ver a vizinhança, mas não te afastes muito! mas como o mundo é cruel e injusto, temos que sair de casa e dar o grito do ipiranga (que barulheira! desde que saíste de casa que quase não te reconheço!) e consequentemente as preocupações das nossas mães aumentam. e por isso estamos mais gordos, pior vestidos, com a roupa toda amarrotada, um corte de cabelo horroroso, porque sabemos perfeitamente, que a nossa mãe toma melhor conta de nós, do que nós próprios.
e por isso se preocupa, pois claro! pois, claro...